Decisões baseadas no Essencial

No livro, uma das questões essenciais é distinguir aquilo que é essencial do que não é essencial. Saber fazer essa distinção é o primeiro passo para se tomar qualquer decisão (principalmente as mais importantes!).

Para tanto, precisamos de critérios pessoais que nos ajudem prontamente a identificar algo como essencial. Assim, aos 45 anos de estrada, procurei formalizar abaixo os meus critérios que compartilho aqui com vocês:

Meus critérios essenciais para tomada de decisão

  1. É da minha conta?
  2. Aprimora uma virtude?
  3. Irá me fazer bem?
    • saúde física e mental
  4. Não causa nenhuma dependência?
    • financeira, emocional, geográfica e tempo
  5. Já não tentei isso antes?
  6. Impõe como condição abrir mão de algo que eu já possuo e que atende aos meus critérios?
  7. Somente ouça seu coração quando a razão não tiver nenhuma objeção (05-09-2020)

Explico:

1º e 2º. São recentes… adotei do filósofo grego Epicteto, do livro Encheiridion – O Manual para a Vida.

3º. Parece meio óbvio, mas geralmente acabo esquecendo de dar a devida prioridade.

4º. Esse é radical… considera a liberdade como valor maior do indivíduo. Muitas vezes, escolhemos coisas que nos amarram. Coisas que consomem dinheiro todo o mês; relacionamentos que precisamos nos dedicar e com isso abrir mão de outras coisas nossas; coisas que nos obrigam a criar raízes, que tiram nossa mobilidade de hoje estar aqui e amanhã em qualquer outro lugar; e coisas que irão consumir nosso tempo de forma recorrente e por tempo indeterminado. Pode parecer egoísmo, mas é preciso enxergar sob o ponto de vista de escolhas, por exemplo: dependência e independência, qual destas é uma virtude e qual é um vício? Me parece que ninguém queira ser dependente de algo ou de alguém… da mesma forma também não faz sentido desejar que alguém seja dependente de algo ou de alguém. Nesse caso, por que escolher algo que deixe você ou outra pessoa em uma condição de dependência?

Não estou dizendo aqui que devemos nos isolar de tudo e de todos. Que temos que ser seres “anti-sociais” para sermos independentes. Creio que é possível que alguém seja feliz morando sozinho isolado no alto de alguma montanha por exemplo, da mesma forma que, também, é possível que alguém seja feliz estando sempre rodeado por amigos e familiares. O que eu defendo aqui não é uma “anti-socialização”, e, sim, relações sociais independentes. Nestas relações, trata-se ser uma escolha estarmos com quem desejamos estar, não uma necessidade. Estas relações podem ser rompidas a qualquer momento, novamente por escolha de qualquer uma das partes, sem que isso cause qualquer dano ou prejuízo à qualquer uma delas. A frase da imagem abaixo ilustra com outras palavras esse tipo de relação:

Nas relações “desapegadas”, estamos por que queremos, trata-se de uma escolha e não de uma necessidade ou dependência. Sempre que nos colocamos em uma situação em que somos dependentes de algo ou colocamos alguém em uma situação que esta se torne dependente de algo, estamos dificultando a possibilidade de se fazer novas escolhas pois, antes disso, será preciso, mais cedo ou mais tarde, se tornar independente e portanto livre para então seguir novos caminhos.

Para me apoiar, trago um trecho do livro Encheiridion de Epicteto (que para mim, particularmente, é umas das máximas de Epicteto!):

[7] “Em uma viagem marítima, se saíres para fazer provisão de água quando o navio estiver ancorado, poderás também pegar uma conchinha e um peixinho pelo caminho. Mas é preciso que mantenhas o pensamento fixo sobre o navio, voltando-te continuamente. Que jamais o piloto te chame. E se te chamar, abandona tudo para que não sejas lançado ao navio amarrado como as ovelhas. Assim também é na vida. Não será um obstáculo se ela te der, ao invés de uma conchinha e um peixinho, uma mulherzinha e um filhinho. Mas se o capitão te chamar, corre para o navio, abandonando tudo, sem te voltares para trás. E se fores velho, nunca te afastes muito do navio, para que, um dia, quando o piloto te chamar, não fiques para trás.” (Epicteto, pg.41)

 

5º. Esse critério serve apenas para assegurar de que não estou repetindo um erro do passado. Errar pela primeira vez é aprendizado… já cometer o mesmo erro pela segunda vez é estupidez.

6º. Esse levei muito tempo para aprender. Significa que se algo impõe como condição abrir mão de outra coisa que você faz e gosta e que atende aos mesmos critérios acima, então existe aí algo de negativo… algo que está subtraindo em vez de somar. Se isso acontece, então a troca não se justifica.

7º. Essa premissa é recente. Muitas vezes me deixo levar pela emoção para tomar uma decisão, ou então demorar a decidir por que a razão tem objeções contrárias à vontade do coração. Nesse caso, minha experiência de vida me mostrou que as decisões que tomei seguindo a vontade do coração serviram para cometer erros e aprender com eles, de forma a não cometê-los de novo. Servem como aprendizado, mas apenas te diz que direção não deve-se tomar. Nestes erros, é logicamente correto afirmar que se a vontade do coração estava errada, é por que as objeções da razão faziam sentido e, por isso, não deveriam ser ignoradas. Por isso, a vontade do coração subjuga-se aos critérios da razão. Enquanto a razão tiver objeção, não declinarei à vontade do coração.

 

 

Assim, hoje, segundo meus critérios (hehehe) somente se uma escolha atender aos 7 princípios acima, a resposta é sim. Caso contrário é não.

E você, quais são os seus critérios essenciais?

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