A FILOSOFIA DE WALTER BENJAMIN

RESUMO DOS TEXTOS

Walter Benjamin, Obra Escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política


1: “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”

2: “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”

3: Meia noite na história. Comentário às teses de Benjamin sobre o conceito de história.


1: “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”


Neste capítulo Walter Benjamin faz um crítica em relação aos efeitos da reprodutibilidade técnica na arte.

Relacionando vários pontos, o autor nesta obra faz uma crítica aos efeitos negativos da reprodução técnica da arte e das características e efeitos negativos da arte da reprodução técnica.

  • No primeiro, trata do impacto negativo da reprodução técnica de obras de arte que antes só existiam em seu formato original.
  • No segundo, caracteriza as novas formas de expressão artísticas que tiveram sua origem e finalidade na própria capacidade de reprodução técnica, ressaltando principalmente, o cinema.

Entre os vários pontos do autor abordados na obra destacam-se:

A Perda da Autenticidade: Quanto à esse ponto o autor ressalta a perda da autenticidade das obras de arte a partir do momento em que, de uma obra de arte original, fez-se cópias com o propósito de possibilitar a massificação de sua contemplação. Exemplo disso são as reproduções técnicas feitas a partir de quadros famosos.

Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra. É nessa existência única, e somente nela, que se desdobra a história da obra. Essa história compreende não apenas as transformações que ela sofreu, com a passagem do tempo, em sua estrutura física, como as relações de propriedade em que ela ingressou. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 167)

O aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade, e nela se enraíza uma tradição que identifica esse objeto, até os nossos dias, como sendo aquele objeto, sempre igual e idêntico a si mesmo. A esfera da autenticidade, como um todo, escapa à reprodutibilidade técnica, e naturalmente não apenas à técnica. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 167)

A Destruição da Aura: O autor refere-se à aura como o momento da contemplação. É a apreciação temporária da arte que tem uma existência única. Troca-se, por exemplo, o momento de contemplação único em que o sol se põe por completo no mar para que no lugar se tenha como objetivo tirar uma fotografia como forma de eternizar um momento que não pode ser eternizado, a fim de que o mesmo possa ser contemplado “em segunda mão” por outros.

Em suma, o que é a aura? É uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja. Observar, em repouso, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho. Graças a essa definição, é fácil identificar os fatores sociais específicos que condicionam o declínio atual da aura. Ele deriva de duas circunstâncias, estreitamente ligadas à crescente difusão e intensidade dos movimentos de massas. Fazer as coisas “ficarem mais próximas” é uma preocupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência a superar o caráter único de todos os fatos através da sua reprodutibilidade. Cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir o objeto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na sua cópia, na sua reprodução.  (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 170)

Ritual e Política: O autor ressalta a transformação social provocada pela reprodução técnica da arte. A arte que antes era contemplada na forma de ritual, sem interesse além da própria contemplação, dá lugar à obra de arte criada e concebida já com o propósito de ser “contemplada” para as massas. A arte criada para as massas deixa de servir à contemplação para servir à um propósito social.

A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida. A chapa fotográfica, por exemplo, permite uma grande variedade perde cópias; a questão da autenticidade das cópias não tem nenhum sentido. Mas, no momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 171)

O Valor do Culto x O Valor da Exposição: A arte que antes era contemplada presencialmente era como se fosse uma espécie de culto, e tinha seu valor. Com a reprodução técnica, o valor da exposição da obra de arte reproduzida criou o valor da exposição em massa.

Os dois pólos são o valor de culto da obra e seu valor de exposição. A produção artística começa com imagens a serviço da magia. O que importa, nessas imagens, é que elas existem, e não que sejam vistas. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 171)

[…]

A exponibilidade de uma obra de arte cresceu em tal escala, com os vários métodos de sua reprodutibilidade técnica, que a mudança de ênfase de um pólo para outro corresponde a uma mudança qualitativa comparável à que ocorreu na pré-história. Com efeito, assim como na pré-história a preponderância absoluta do valor de culto conferido à obra levou-a a ser concebida em primeiro lugar como instrumento mágico, e sô mais tarde como obra de arte, do mesmo modo a preponderância absoluta conferida hoje a seu valor de exposição atribui-lhe funções inteiramente novas, entre as quais a “artística”, a única de que temos consciência, talvez se revele mais tarde como secundária. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 171)

A Perda do Valor da Eternidade: O valor da eternidade tem relação com sua perfectibilidade, ou seja, a perfeição com que foi criada pela primeira vez sem que houvesse recursos corretivos. É grau de perfeição da primeira e única versão da obra produzida. Cita como exemplo as esculturas gregas esculpidas em um único bloco e compara com as produções cinematográficas, de onde são gravadas várias vezes a mesma cena para que depois seja escolhida a mais “perfeita”.

O filme acabado não é produzido de um só jato, e sim montado a partir de inúmeras imagens isoladas e de sequências de imagens entre as quais o montador exerce seu direito de escolha — imagens, aliás, que poderiam, desde o início da filmagem, ter sido corrigidas, sem qualquer restrição. Para produzir A opinião pública, com uma duração de 3000 metros, Chaplin filmou 125000 metros. O filme é, pois, a mais perfectível das obras de arte. O fato de que essa perfectibilidade se relaciona com a renúncia radical aos valores eternos pode ser demonstrado por uma contraprova. Para os gregos, cuja arte visava a produção de valores eternos, a mais alta das artes era a menos perfectível, a escultura, cujas criações se fazem literalmente a partir de um só bloco. Daí o declínio inevitável da escultura, na era da obra de arte montável. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 175)

Diferenças entre o Cinema e outras formas de Arte:  O autor ressalta por exemplo que a produção cinematográfica apresenta muito mais características de produção, quantitativas, do que de do estado da arte em si, qualitativas.

Em uma produção cinematográfica, por exemplo, um filme é dividido em cenas, que na grande maioria das vezes são gravadas não de forma sequencial, mas de forma à que seja a menos custosa possível. Os atores, interpretam as cenas “avulsas”, partes do filme. As cenas são posteriormente “selecionadas”, “juntadas”, “cortadas” na edição final que irá compor o filme. O objetivo não é para com a qualidade artística, e sim para a efetividade da produção técnica da arte. Compara-se com um pintor que em sua tela, só tem uma única versão de sua obra a produzir, sem possibilidade de edição.

Alteração da forma de recepçãoOutro ponto destacado pelo autor refere-se à forma com que as obras de arte “reprodutíveis” alteraram a forma de percepção das pessoas. Se antes uma pessoa poderia ficar horas contemplando uma paisagem, um quadro ou uma escultura, agora no cinema, o tempo de contemplação não é definido por quem teoricamente deveria contemplar e, sim, é definido por aquele que produziu o filme, que tem o poder de definir o número de imagens e a velocidade com que cada uma terá que ser contemplada.

O comportamento progressista se caracteriza pela ligação direta e interna entre o prazer de ver e sentir, por um lado, e a atitude do especialista, por outro. Esse vínculo constitui um valioso indício social. Quanto mais se reduz a significação social de uma arte, maior fica a distância, no público, entre a atitude de fruição e a atitude crítica, como se evidencia com o exemplo da pintura. Desfruta-se o que é convencional, sem criticá-lo; critica-se o que é novo, sem desfrutá-lo. Não é assim no cinema. O decisivo, aqui, é que no cinema, mais que em qualquer outra arte, as reações do indivíduo, cuja soma constitui a reação coletiva do público, são condicionadas, desde o início, pelo caráter coletivo dessa reação. Ao mesmo tempo que essas reações se manifestam, elas se controlam mutuamente. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 188)

Compare-se a tela em que se projeta o filme com a tela em que se encontra o quadro. Na primeira, a imagem se move, mas na segunda, não. Esta convida o espectador à contemplação; diante dela, ele pode abandonar-se às suas associações. Diante do filme, isso não é mais possível. Mas o espectador percebe uma imagem, ela não é mais a mesma, Ela não pode ser fixada, nem como um quadro nem como algo de real. A associação de ideias do espectador é interrompida imediatamente, com a mudança da imagem. Nisso se baseia o efeito de choque provocado pelo cinema, que, como qualquer outro choque, precisa ser interceptado por uma atenção aguda. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 192)

A distração e o recolhimento representam um contraste que pode ser assim formulado: quem se recolhe diante de uma obra de arte mergulha dentro dela e nela se dissolve, como ocorreu com um pintor chinês, segundo a ler;- da, ao terminar seu quadro. A massa distraída, pelo contrário, faz a obra de arte mergulhar em si, envolve-a com o ritmo de suas vagas, absorve-a em seu fluxo. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 193)

Através da distração, como ela nos é oferecida pela arte, podemos avaliar, indiretamente, até que ponto nossa percepção está apta a responder a novas tarefas. E, como os indivíduos se sentem tentados a esquivar-se a tais tarefas, a arte conseguirá resolver as mais difíceis e importantes sempre que possa mobilizar as massas. É o que ela faz, hoje em dia, no cinema. A recepção através da distração, que se observa crescentemente em todos os domínios da arte e constitui o sintoma de transformações profundas nas estruturas perceptivas, tem no cinema o seu cenário privilegiado. E aqui, onde a coletividade procura a distração, não falta de modo algum a dominante tátil, que rege a reestruturação do sistema perceptivo. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 194)

A Instrumentalização da ArteOutro ponto que o autor ressalta em relação ao cinema é sua função como instrumento de controle social, proporcionado por sua exposição em massa. Não se trata de uma arte com fim em si mesma, o cinema produz visando as massas que pretende atingir a fim de atingir determinado propósito social.

Uma das funções sociais mais importantes do cinema é criar um equilíbrio entre o homem e o aparelho. O cinema não realiza essa tarefa apenas pelo modo com que o homem se representa diante do aparelho, mas pelo modo com que ele representa o mundo, graças a esse aparelho. Através dos seus grandes planos, de sua ênfase sobre pormenores ocultos dos objetos que nos são familiares, e de sua investigação dos ambientes mais vulgares sob a direção genial da objetiva, o cinema faz-nos vislumbrar, por um lado, os mil condicionamentos que determinam nossa existência, e por outro assegura-nos um grande e insuspeitado espaço de liberdade. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 189)

 


2: “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”


Nesse capítulo Walter Benjamin resgata nas obras de Leskov o valor das narrativas que têm sido perdido, principalmente a partir das novas formas literárias possíveis graças à criação da imprensa, como o romance e a informação.

Considera-se a narrativa uma arte de quem narra e transmite verbalmente uma história, podendo esta então, ser novamente narrada e retransmitida de quem ouviu em primeira mão para outrem. A narrativa existe em função de 2 grupos de narradores, o grupo narrador representado pelo marinheiro comerciante e o grupo representado pelo camponês sedentário. Segundo W.B., estes 2 estilos de vida reproduziram suas respectivas famílias de narradores.

Segue abaixo a biografia de Leskov por Walter Benjamin:

Leskov está à vontade tanto na distância espacial como na distância temporal. Pertencia à Igreja Ortodoxa grega e tinha um genuíno interesse religioso. Mas sua hostilidade pela burocracia eclesiástica não era menos genuína. Como suas relações com o funcionalismo leigo não eram melhores, os cargos oficiais que exerceu não foram de longa duração. O emprego de agente russo de uma firma inglesa, que ocupou durante muito tempo, foi provavelmente, de todos os empregos possíveis, o mais útil para sua produção literária. A serviço dessa firma, viajou pela Rússia, e essas viagens enriqueceram tanto a sua experiência do mundo como seus conhecimentos sobre as condições russas. Desse modo teve ocasião de conhecer o funcionamento das seitas rurais, o que deixou traços em suas narrativas. Nos contos lendários russos, Leskov encontrou aliados em seu combate contra a burocracia ortodoxa. Escreveu uma série de contos desse gênero, cujo personagem central é o justo, raramente um asceta, em geral um homem simples e ativo, que se transforma em santo com a maior naturalidade. A exaltação mística é alheia a Leskov. Embora ocasionalmente se interessasse pelo maravilhoso, em questões de piedade preferia uma atitude solidamente natural. Seu ideal é o homem que aceita o mundo sem se prender demasiadamente a ele. Seu comportamento em questões temporais correspondia a essa atitude. É coerente com tal comportamento que ele tenha começado tarde a escrever, ou seja, com 29 anos, depois de suas viagens comerciais. Seu primeiro texto impresso se intitulava: “Por que são os livros caros em Kiev?”. Seus contos foram precedidos por uma série de escritos sobre a classe operária, sobre o alcoolismo, sobre os médicos da polícia e sobre os vendedores desempregados. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 199-200)

Outra característica da narrativa é sua dimensão utilitária. Ela carrega em si, junto com o que é narrado, um ensinamento. Segundo W.B.:

Tudo isso esclarece a natureza da verdadeira narrativa. Ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida — de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 200)

O primeiro indício da queda da narrativa, se dá, segundo o autor, com o surgimento do romance no início do período moderno. Segundo o autor:

O que separa o romance da narrativa (e da epopéia no sentido estrito) é que ele está essencialmente vinculado ao livro. A difusão do romance só se torna possível com a invenção da imprensa. A tradição oral, patrimônio da poesia épica, tem uma natureza fundamentalmente distinta da que caracteriza o romance. O que distingue o romance de todas as outras formas de prosa — contos de fada, lendas e mesmo novelas — é que ele nem procede da tradição oral nem a alimenta. Ele se distingue, especialmente, da narrativa. O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes. O romancista segrega-se. A origem do romance é o indivíduo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos nem sabe dá-los. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 201)

Entretanto, outro elemento de comunicação tomou relevância até mesmo sobre o romance quando encontrou na imprensa um meio para se difundir em escala: a comunicação.

Por outro lado, verificamos que com a consolidação da burguesia — da qual a imprensa, no alto capitalismo, é um dos instrumentos mais importantes — destacou-se uma forma de comunicação que, por mais antigas que fossem suas origens, nunca havia influenciado decisivamente a forma épica. Agora ela exerce essa influência. Ela é tão estranha à narrativa como o romance, mas é mais ameaçadora e, de resto, provoca uma crise no próprio romance. Essa nova forma de comunicação é informação. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 202)

Enquanto a narrativa evita dar explicações (elas ficam ao cargo do ouvinte), a informação por sua vez precisa ser imediata e precisa, ela precisa dar no momento em que é transmitida, todas as explicações necessárias para o seu entendimento. Nesse ponto o autor compara algumas características da informação em relação à narrativa:

Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Metade da arte narrativa está em evitar explicações. Nisso Leskov é magistral. (Pensemos em textos como A fraude, ou À águia branca.) O extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 203)

[…]

A informação só tem valor no momento em que é nova. Ela só vive nesse momento, precisa entregar-se inteiramente a ele e sem perda de tempo tem que se explicar nele. Muito diferente é a narrativa. Ela não se entrega. Ela conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de se desenvolver. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 204)

Benjamin destaca também que Leskov considerava a narrativa uma produção artesanal, e que dada sua natureza, não poderia acompanhar as formas de comunicação criadas para serem distribuídas utilizando as técnicas produtivas industriais.

Mais adiante o autor faz uma comparação entre o ouvinte de uma narrativa e o leitor de um romance:

Quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia. Mas o leitor de um romance é solitário. Mais solitário que qualquer outro leitor (pois mesmo quem lê um poema está disposto a declamá-lo em voz alta para um ouvinte ocasional). Nessa solidão, o leitor do romance se apodera ciosamente da matéria de sua leitura. Quer transformá-la em coisa sua, devorá-la, de certo modo. Sim, ele destrói, devora a substância lida, como o fogo devora lenha na lareira. A tensão que atravessa o romance se assemelha muito à corrente de ar que alimenta e reanima a chama. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 213)

E também ressalta o aspecto conselheiro infantil dos contos de fadas:

“E se não morreram, vivem até hoje”, diz o conto de fadas. Ele é ainda hoje o primeiro conselheiro das crianças, porque foi o primeiro da humanidade, e sobrevive, secretamente, na narrativa. O primeiro narrador verdadeiro é e continua sendo o narrador de contos de fadas. Esse conto sabia dar um bom conselho, quando ele era difícil de obter, e oferecer sua ajuda, em caso de emergência. Era a emergência provocada pelo mito. O conto de fadas nos revela as primeiras medidas tomadas pela humanidade para libertar-se do pesadelo mítico. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 215)

De uma forma geral, por meio das obras de Leskov, Walter Benjamin faz uma crítica quanto ao declínio da narrativa para outros tipos de comunicação surgidos com o progresso da idade moderna, como o romance e a informação e, principalmente, o que os valores transmitidos pelas narrativas que foram perdidos na idade moderna.

 


3: Meia noite na história. Comentário às teses de Benjamin sobre o conceito de história.

Tese 1ª e 6ª


Walter Benjamin traça uma crítica quando trata em relação ao conceito de história. Em sua primeira tese, apresenta na forma de metáfora a forma como entende que a sociedade é iludida pelo materialismo histórico, uma vez que o mesmo é apenas uma fachada onde o controle efetivo ainda é dado pela teologia. Neste crítica, apesar do racionalismo moderno ter-se colocado à frente da religião, para ele, a ciência e a razão precisam ser movidas por alguém. E esse alguém ainda seria a teologia.

Tese 1

Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contra-lance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 222)

Mais adiante na tese 6, Walter Benjamin ressalta a sagacidade do materialismo histórico no que se refere à instrumentalização da própria história. A história em si passa a ser mais um instrumento que é utilizado para manutenção da dominação das massas. A história então recebe a roupagem e a maquiagem necessárias para transparecer uma imagem que, quando assimilada pelas massas, reforça os conceitos através dos quais auxiliam na perpetuação da submissão.

Tese 6

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como eia relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer. (W.Benjamin, Obras Escolhidas: pág. 225)

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