O MUNDO DOS ANIMAIS NÃO HUMANOS COMO VONTADE

 

O artigo a seguir trata-se de uma análise do livro “O Mundo como Vontade e Representação” de Arthur Schopenhauer, onde visa entender o que o autor considera por “vontade”. A partir do entendimento da vontade e como essa possui um papel importante para com o universo, buscaremos saber como essa está relacionada com os animais em geral, seja humanos ou não humanos e quais são os possíveis resultados da atitude do ser racional para com a ética e os seres até então considerados irracionais.

Se animais humanos e não humanos possuem a mesma finalidade no universo, poderíamos tratar estes com inferioridade? Se animais humanos e não humanos possuem similaridades tão próximas, teríamos algum direito de escravizá-los?

 

A vontade em Schopenhauer

Para Schopenhauer, todos os indivíduos na natureza são movidos pela vontade, essa que é algo inerente, ou seja, guia a natureza para um determinado caminho e finalidade. O homem como ser pensante possui consciência de sua vontade, porém esta é anterior às nossas ideias e às nossas ações. Dessa forma, diz o autor, que “[a] Vontade é um cego robusto que carrega um aleijado que enxerga”, ou seja, podemos saber o que estamos fazendo, porém nem sempre queremos fazer o que estamos fazendo.

Um bom exemplo da vontade presente no homem seria entender o arrependimento do ser humano. Suponhamos que um determinado homem não quer ter filhos. Mesmo sabendo disso, a vontade fará com que o mesmo queira fazer sexo e fará com que este sacie essa necessidade, esse desejo, e dessa forma, caso esse homem posteriormente a uma relação receba a notícia de que será pai, logo virá o arrependimento do ato. Ou seja, esse homem tinha a consciência do que estava fazendo mesmo sem querer o resultado que o ato poderia gerar; portanto, a vontade que é o cego robusto se encarregou de carregar o aleijado que enxerga.

A vontade estaria presente em tudo que move o universo: nos fenômenos da natureza, na atração e repulsão dos corpos, na lei da gravitação universal, na fotossíntese, no encanto que faz com que a maioria dos vegetais se voltem na direção do sol na busca de luz, etc.

A vontade, portanto, é um ímpeto cego e irresistível que se estende por todo o universo. Sendo assim, a vontade é única e irracional, o que gera uma busca eterna pela satisfação de seus desejos. De tal forma, Schopenhauer concluiria dizendo: “A vontade é o primário e originário; o conhecimento é meramente adicionado como instrumento pertencente à aparência da vontade” (SCHOPENHAUER, 1924, p.6448).

 

A vontade existente nos animais não humanos

A vontade que existe nos animais não humanos deve ser entendida como a mesma vontade existente nos animais humanos, pois sendo a vontade a essência do mundo, ou seja, o que o move, esta deve mover não apenas os animais, mas também toda a natureza. Dessa forma, “toda a natureza é o aparecimento e portanto a consumação da vontade de vida” (SCHOPENHAUER, 1924, p.6077).

A vontade então é entendida nos animais não humanos como instinto. Em alguns exemplos, a vontade é aquela que faz com que as aves migrem, acasalem e voltem para seu habitat natural, é aquela que faz a larva de um escaravelho enquanto estado larval cavar um buraco maior que o seu tamanho, sabendo que em sua metamorfose necessitará de espaço para o crescimento, ou ainda seria aquela que faz com que o salmão abandone as águas do mar para subir rios gelados, passando por corredeiras turbulentas com um único objetivo, o de procriar, onde logo após esse feito o mesmo vem a morrer. Portanto, em todos os exemplos os animais demostram a mesma finalidade guiada pela vontade, a vida.

Indo mais a fundo nessa vontade animal que possui a finalidade de preservar a vida, podemos entender todas as espécies que, quando ameaçadas, buscam meios de proteção para escapar da morte, seja atacando, fugindo ou se escondendo. Poderíamos citar como exemplo o ouriço-cacheiro que consegue eriçar seus espinhos quando se sente ameaçado, desprendendo-os facilmente da pele e penetrando-os facilmente no agressor. Poderíamos citar também a ave tesourinha-da-mata que, em época de reprodução, constrói seus ninhos em meio ao musgo seco, pois a plumagem do filhote fica extremamente parecida com a vegetação da árvore e assim ficando muito bem camuflado e escondido dos predadores (tanto o macho como a fêmea dessa espécie dedicam suas vidas ao cuidado da prole).

Com esses exemplos, podemos entender a proximidade que os animais não humanos possuem dos animais humanos com relação à vontade descrita por Schopenhauer, pois sendo a vontade guia do universo, de todas as espécies, podemos identificar em muitos casos que ambos possuem um alto nível de interesse em gerar e cuidar de sua prole e, praticamente em sua totalidade, a vontade de viver. Portanto, “…só como aparência uma pessoa é diferente das outras coisas do mundo; como coisa em si ela é a vontade que aparece em tudo, e a morte remove a ilusão que separa a sua consciência da dos demais: e isto é a existência continuada” (SCHOPENHAUER, 1924, p.6226).

 

Animais não humanos e a “vontade de viver”

Inicialmente para adentrar neste assunto precisamos entender por que colocamos entre aspas a “vontade de viver”, portanto segundo Schopenhauer (1924, p. 6049):

A vontade que, considerada puramente em si, destituída de conhecimento, é apenas um ímpeto cego e irresistível- como a vemos aparecer na natureza inorgânica e na natureza vegetal, assim como na parte vegetativa da nossa própria vida – atinge, pela entrada em cena do mundo como representação (desenvolvido para servir à vontade), o conhecimento do seu querer e daquilo que ela quer, a saber, nada senão este mundo, a vida, precisamente como esta existe. Por isso denominamos o mundo aparente seu espelho, sua objetidade; e, como o que a vontade sempre quer é a vida, justamente porque a vida nada é senão a exposição daquele querer para a representação, é indiferente e tão somente um pleonasmo se, em vez de simplesmente dizermos “a Vontade”, dizemos “a Vontade de vida”.

Sendo assim, podemos pressupor que sendo a vontade algo intrínseco no indivíduo, nem o animal humano nem o animal não humano gostariam de morrer, pois ambos possuem vontade e com isso intrinsicamente protegem a sua vida. Além do mais, o autor considera um ser pela capacidade que esse possui de sofrer e não pela sua razão. Esse é um dos motivos pelo quais os animais não humanos também são dignos de consideração moral.

Além disso, foi declarado que animais não humanos também possuem consciência. Conforme a declaração de Cambridge, publicada por Low, Edelman e Koch, em 2012:

Nós declaramos o seguinte: “A ausência de um neocórtex não parece impedir que um organismo experimente estados afetivos. Evidências convergentes indicam que animais não humanos têm os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos de estados de consciência juntamente como a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, o peso das evidências indica que os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e as aves, e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem esses substratos neurológicos”.

A partir desse momento, é necessário questionar nossas práticas diárias, a prática de escravização de outra espécie, pois quando compramos e ingerimos carne inevitavelmente estamos contribuindo para a morte de um animal que não gostaria de ser morto, estamos privando o mesmo da vida. O mesmo acontece quando compramos produtos responsáveis por testes em animais que acabam causando dores ao mesmo, ou ainda compramos um animal doméstico cujos pais sofrem com o encarceramento. A questão principal é buscar entender o que nos dá o direito de manipular essa natureza, de transformar os animais em objetos a serviço do homem, de criá-los para depois matá-los, de aprisioná-los, pois “…o indivíduo é a vontade de vida mesma numa objeção singular, todo o ser do individuo insurge-se contra a morte” (SCHOPENHAUER, 1924, p.6242).

Além de viver, o animal precisa exercer o seu instinto, ou seja, a sua vontade, porém quando os privamos de exercer tal função, sua essência para com o mundo, esse acaba caindo no que Schopenhauer definia como tédio, isto é, uma desocupação da vontade. Essa desocupação seria diferente do animal humano, pois ela seria imposta, ou seja, a partir do momento que aprisionamos ou criamos determinados animais, a vontade do indivíduo não tem para onde tender ou para onde desejar e acaba entrando em um vazio, um peso intolerável da existência.

Podemos claramente perceber tal acontecimento na criação de galinhas. Quando criadas em gaiolas, onde passam toda sua vida, desenvolvem estresse e acabam entrando em estado de tédio, uma espécie de depressão e a partir daí bicam as companheiras ao seu redor, demonstrando comportamentos de ansiedade e a até mesmo segurando seus ovos o máximo que podem, pois percebem que aquele ovo não ficará consigo após ser posto. E esse acontecimento é diferente do que ocorre com galinhas soltas em uma fazenda ou um grande campo por exemplo, pois nesses locais conseguem seguir seus instintos, onde em sua espécie possuem a prática de ciscar, fazer ninhos, estabelecer sua hierarquia e pôr ovos com a frequência necessária, pois, com essa liberdade, Schopenhauer diria que a vontade mostra-se conveniente e é exercida.

Portanto, é nítido perceber que animais não humanos também possuem a necessidade de exercer sua vontade, de viver, e que não são objetos ou produtos a serviço do homem, mas sim vidas que possuem sua consciência e são capazes de sentir dor e emoções, tal como dito pelo autor “…assim como a vontade a vida é certa, vida que é a aparência própria da vontade, também lhe é certo o presente, única forma de vida real” (SCHOPENHAUER, 1924, p.6163). Melhor dizendo, quando escravizamos tais espécies, privando-as de exercer sua vontade, estamos automaticamente privando-as da vida.

 

A Privação da vontade e o especismo

Como vimos nas seções anteriores, a privação da vontade e automaticamente a privação da vida acontecem quando privamos o animal não humano de exercer seu instinto, fazendo com que ele acabe por entrar em estado de tédio.

Já o “especismo” é um termo criado em 1970 por Richard Ryder, um psicólogo defensor dos direitos dos animais. Trata-se de uma forma de discriminação, onde pelo fato de um indivíduo ser humano considerar outros seres não-humanos inferiores a ele, e ignora o sofrimento do animal não-humano, negando-lhe também a vida.

Portanto, quando privamos o que Schopenhauer entende como vontade em um animal não humano, estamos logo sendo especista, ou seja, estamos descartando ou não pensando na capacidade que o animal possui de sentir dor e emoções igualmente a dos humanos e, dessa forma, transformando esses próprios animais em produtos a serviço do homem. Em alguns casos, podemos exemplificar ainda melhor como ocorre o especismo. Por exemplo, um porco possui a capacidade cognitiva de uma criança de aproximadamente 3 anos e, além disso, são mais inteligentes do que cães ou gatos. Porém, acharíamos inaceitável causar qualquer confinamento ou dor a uma criança de 3 anos, ou, ainda, acharíamos inaceitável matar um cão ou um gato (ao menos no Brasil) para a alimentação. Portanto, encontramos o especismo nesses momentos, pois mesmo que um porco possa sentir dor, emoção, ter memória, entre outras capacidades semelhantes a de uma criança de três anos, simplesmente descartamos todas essas capacidades por ele ser de outra espécie diferente da nossa, ou ainda diferente da de animais domesticados. Nesse exemplo, fica uma importante indagação: ao privarmos de um porco sua vontade, não estaríamos, tal como quando privamos a vontade de uma criança de três anos, causando o mesmo crime para com ambos os seres? Ora, o sofrimento causado a esse animal deveria receber o mesmo peso do sofrimento causado a uma criança de três anos, ou a um cachorro ou um gato, pois ambos possuem vontades e ambos possuem a capacidade de sofrer na mesma proporção.

Outro exemplo importante foi exposto no livro “Libertação Animal”, de Peter Singer.  Trata-se da comparação entre animais não humanos em estado mental normal e animais humanos em situação mental precária. Uma defesa comum em favor da diferença entre ambos está na alegação de que “ele não é um ser humano” ou “o ser humano é mais inteligente e superior”. Isso é o mesmo que ocorre quando achamos extremante imoral causar a morte ou realizar testes de laboratório em um ser humano em estado vegetativo, ou seja, uma pessoa que é incapaz de reagir a estímulos externos, que não possui mais as funcionalidades normais de seu cérebro, mas achamos aceitável matar um animal para consumo ou utilizá-lo como objeto em testes de laboratório, mesmo que ele possua a capacidade de responder a estímulos externos, ou seja, que nitidamente teria uma maior capacidade mental do que a do ser humano em estado vegetativo. O que Singer pretende é justamente mostrar como o especismo se comporta, pois não importa o quão parecido o animal possa ser de um ser humano ou se é até mesmo superior em determinados momentos, pois como ele é considerado não humano, isso parece bastar para tratá-los com inferioridade.

Há, porém, comprovações cientificas que animais podem ter sentimentos muitos próximos aos dos humanos. Um estudo realizado na universidade de Emory na Geórgia liderada pelo biólogo Joshua Plotink conseguiu observar que elefantes ficam tristes quando veem seus companheiros sofrerem e aproximam-se para acalmá-los e consolá-los, além de emitir sons particulares como se estivessem querendo dizer ao companheiro que está tudo bem. O cientista alega que esses animais agem de forma bem parecida a de humanos quando esses abraçam alguém está chateado na intenção de consolar. Existem outros estudos que podem comprovar simpatia em outras espécies como ratos, chimpanzés, cachorros, entre outros, ou seja, os humanos não são os únicos a ter sentimentos.

Portanto, fica claro que o especismo é simplesmente o fato de achar que a espécie humana é superior às demais espécies. Conseguimos esclarecer com exemplos que muitas vezes essa posição é irracional e simplesmente irrisória. Schopenhauer deixa claro em seus escritos ser contra a superioridade humana sobre a dos demais seres do universo, pois todos possuem vontade e a privação desse feito seria um ato contra a vida e também contra a propagação do universo. Por esse motivo, esse assunto se torna uma discussão ética, pois insurge a necessidade de mudança de comportamento humano, ou seja, uma mudança de hábito: “Pois caráter tira seu nome de hábito; e assim a ética tira o seu nome de criar um hábito (é de habito, que o caráter tira seu nome, e a ética tira seu nome de criar um hábito)” (SCHOPENHAUER, 1924, p.6460).

 

Conclusão

Diante do exposto podemos concluir que a vontade apresentada por Schopenhauer está presente tanto no animal humano quanto no animal não humano, e quando privamos o mesmo de exercer tal função esse acaba entrando em estado de tédio, ou seja, uma desocupação da vontade o que traz transtornos prejudiciais ao indivíduo. Podemos concluir que o animal, ao ficar preso ou em espaços limitados onde não consiga exercer sua vontade, seu instinto, acaba por ter uma vida de sofrimento contínuo.

Essa atitude humana de utilizar o animal como objeto a serviço do homem é conhecida como especismo e podemos provar no texto que o especismo nada mais é do que uma discriminação para com outras espécies, onde mesmo que tenhamos o mesmo sentimento de dor e emoção ainda assim os animais não-humanos são considerados inferiores, simplesmente por serem de uma espécie diferente.

Portanto, os animais não humanos são capazes de sentir dor, ter emoções e memórias. São seres do universo que, conforme argumentado por Schopenhauer, possuem vontade. Sendo assim, nenhuma alegação que inferiorize os animais não-humanos pode justificar o direito de escravizá-los, seja para alimentação, vestuário, testes ou diversão, pois eles possuem desejos, tal como os humanos, expressos pela vontade, assim como possuem consciência. Tais condições de igualdade lhes dá o direito a serem vistos como semelhantes.

Enfim, o que fica de nossa visão sobre os animais não humanos é que devemos respeitá-los, trabalhar nossos pensamentos para evitar o preconceito, pois se são diferentes de plantas, isto é, possuem sistema nervoso e são capazes de sofrer, quem somos nós humanos que nos dá o direito de causar tal sofrimento?

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REFERÊNCIAS

LOW, P. et al. Declaração de Cambridge sobre a Consciência em Animais Humanos e Não Humanos. Cambridge. Disponível no link. Acesso em: 05 Jun. 2020.

GUERREIRO. O estatuto ético do animal em Arthur Schopenhauer, 2017. Disponível no link. Acesso em: 07 Jun. 2020.

Ouriço-cacheiro eriça os espinhos quando se sente ameaçado, 2016. Disponível no link. Acesso em: 20 Jun. 2020.

Tesourinha-da-mata domina a arte da camuflagem, 2019. Disponível no link. Acesso em: 20 Jun. 2020.

Fórum Nacional de defesa e proteção animal. Disponível no link. Acesso em: 20 Jun. 2020.

RYDER. Richard D. Ryder, o psicólogo que criou o termo “especismo”, 2018. Disponível no link. Acesso em: 21 Jun. 2020.

SINGER, Peter. Libertação animal: o clássico definitivo sobre o movimento pelos direitos dos animais. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.

Elefantes manifestam preocupação uns com os outros, revela pesquisa, 2014. Disponível no link. Acesso em: Acesso em: 21 Jun. 2020.

MONTEIRO, Fernando. 10 Lições sobre Schopenhauer: 2.ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2014.

SHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação. Clube de Autores, 2020. – Ebook

4 Comments on "O MUNDO DOS ANIMAIS NÃO HUMANOS COMO VONTADE"

  1. ubirajara.schier | 11/09/2020 at 18:25 | Responder

    Percebo que existem aí duas críticas. Uma é se temos o direito de matar animais para nos servirem de alimento e vestuário, por exemplo. Outra é a forma como isso é feito. Hoje em dia, por exemplo, o abate do gado, em muitos lugares, já é muito mais “humanizado” por assim dizer, ou seja, os animais são bem tratados durante sua existência e tem um abate “digno” (indolor).

    Mas o cerne da questão me parece ser se o ser humano têm o direito de se apropriar de outras espécies, ditas irracionais. Se for esse o caso, coloco a questão: uma criança se perde na savana africana e se depara com uma alcateia de leões e é devorada. Diríamos o quê nesse caso? Essa mesma alcateia também cerca e devora um filhote de zebra. E assim encontraremos exemplos na própria natureza de espécies se alimentando de outras.

    Na natureza conhecemos isso pelo que se chama de Cadeia Alimentar. E não há nenhum especismo nela. O ser humano, por sua capacidade racional, é o que se encontra no topo dela, bem… pelo menos na maioria das vezes.

    Então pergunto: Se o ser humano não tem direito de matar um animal (dignamente) para servir de alimento e vestes, que direito o leão têm de matar e se alimentar de uma zebra? A morte que um leão infringe á uma zebra não seria tão digna quanto à morte que um caçador que infringe à um pato selvagem quando atira e abate o mesmo para o seu jantar?

    A forma como o ser humano trata as espécies que utiliza como alimento é que é muitas vezes irracional quando, principalmente, ocorre em larga escala para servir uma grande população. Mas a forma pode ser corrigida.

    • Bruno Veren | 11/09/2020 at 22:22 | Responder

      Excelente a sua colocação Ubirajara, acho muito importante tais críticas construtivas.

      Respondendo a sua primeira pergunta, diríamos que o leão que devora tanto a criança perdida, quanto a zebra faz isso de forma instintiva, ou seja, o leão por ser um animal carnívoro identifica esses dois elementos como alimento, desta forma é importante frisarmos aqui que raramente um leão ira caçar sem ter fome, portanto não estoca comida, mas sim busca comida quando se tem necessidade. Já o ser humano por natureza é um animal onívoro, pois possui a carga dentária menos desenvolvida que os animais carnívoros e menos complexa que a de animais herbívoros, desta forma, o ser humano não necessita de carne para sobreviver. Portanto, entendo aqui que a natureza de animais carnívoros é de se alimentar de outras espécies, mas não de animais onívoros, pois essa não é a unica opção, e sendo os humanos seres racionais podemos então optar por uma dieta sem carne, logo, isso não pode ser instintivo do ser humano ou uma necessidade intrinsecada do mesmo.

      Respondendo a uma segunda colocação sua que não podemos deixar passar, é a de que desconheço alguma espécie que não seja a humana (que é frágil fisicamente) que utilize outros animais como veste. Contemporaneamente não veria outra forma de colocar essa atitude do homem a não ser como especismo, pois explora outras espécies apenas para ter mais estilos de roupas.

      Nesse terceiro momento gostaria de tratar da sua última colocação, na qual informa que a maneira como ocorre a larga produção de animais para consumo pode ser corrigida. Mas nesse ponto me perguntaria: corrigida de que forma? Voltando ao nosso artigo identificamos que Schopenhauer dirá que todos possuímos vontade sejamos nós humanos ou não humanos, dessa forma, todos temos vontade de viver, onde o ser humano sendo o único ser racional me parece também ser o único capaz de pensar: se algo quer viver, sente dor, tem medo e nós ainda somos responsáveis por toda essa crueldade para com outros seres, será que realmente temos a necessidade de manter os animais em nosso prato e em nossas vestes? Frisando novamente o ponto de que não precisamos disso para a sobrevivência e saúde, teríamos necessidade desse desejo mesquinho de apenas agradar ao paladar ou então nosso ego com roupas “bonitas”?

      Gostaria ainda de alertar, que a crueldade em abatedouros é muito superior do que se pode imaginar olhando para um pedaço de carne em uma bandeja no supermercado.
      Vejo aqui que Schopenhauer concordaria em dizer que não há forma humanizada de matar um ser que quer viver.

  2. Vera L. Muñoz Manzoni | 12/09/2020 at 18:42 | Responder

    Não sou uma leitora de Schopenhauer, pouco conheço sobre Ele. Porém me parece que esta “vontade” que o autor cita carece de uma melhor explicação. Acredito que deve ser mencionado que o “homem” dito “humano” é o único que expressa a sua vontade. E essa expressão de vontade pode ser falada, escrita ou gesticulada. Já o “animal” dito não humano, não pode falar o que sente. Pelo menos não pode falar da forma como nós humanos reconhecemos como “fala” como expressão de vontades. A minha pergunta é: como seria se ao invés do gado ir para o abate mugindo fosse pedindo socorro nas mais diversas línguas que conhecemos? Sim, porque o dito ser humano, quando vê a coisa feia e sente o cheiro da morte fala ou tenta falar em qualquer idioma. Então imaginemos um boi pedindo socorro, socorro me tira daqui, não me mata, por favor, não me mata, faço o que vcs quiserem, tenho bezerrinhos no campo, não me matem, … como seria? Fingimos não entender as vontades dos animais, correto? Pq em nenhum momento a meu ver e a meu entendimento, os animais não expressam vontades e sentimentos. Lá seja com olhares, posturas, exalando cheiros, lambendo o dono, etc. através de muitas formas que são gestuais e sem a tal “palavra”. Um animal acorrentado, enjaulado, embretado é um animal amedrontado, triste, muitas vezes com raiva e com impulsos agressivos naturais em defesa de sua vida. A moralidade, imoralidade ou amoralidade do “humano” que abate animais para consumo próprio é algo cultural, aprendido e que é passado de geração a geração. Por exemplo: o canibalismo é proibido nas culturas ocidentais? Pq nos ensinaram isso. A igreja principalmente. Porém o ser dito “humano” se tiver necessidade, fome o suficiente para chegar ao ponto de ver que sua vida em risco de morte, e tiver a perspectiva, não necessariamente de matar, mas de comer outro humano já morto e conservado, ele o faz. Para provar isto estão os 16 sobreviventes dos Andes Voo F571 que entre coisas consideradas imorais praticaram canibalismo para sobreviver a 72 dias na neve rigorosa da Cordilheira chilena.
    A meu ver fazemos muitos esforços para humanizar os animais porem, o correto seria provar que os humanos são os verdadeiros animais nesta situação de achar-se em superioridade (são irracionais). E notem como isto está impregnado em nossa linguagem (que é o ponto que toquei) e não percebemos, ou talvez nem todos percebam e outros fingem não perceber. Um humano bonito é um gato/a. Um humano procriador é um garanhão/coelho. Um humano namorador é um galinha. Um humano forte é forte como um cavalo ou um touro. Uma humana gorda, geralmente é comparada a uma vaca ou baleia. Um humano muito falante é igual a um papagaio, e aqui há uma incoerência garrafal do humano para com o animal, se o humano é falante igual a um papagaio (loro, caturrita) então estas aves (animais) falam? Correto? Portanto se os humanos têm tantas condutas consideradas comparativas com as condutas dos animas pq não considera-los semelhantes? É uma questão de cultura, aprendizagem e costume. Aprendemos a não entender as vontades dos animais e seus sentimentos, aprendemos a considera-los como inferiores simplesmente pq não falam nossa língua. Enjaulamos centenas de coelhinhos ou macacos em laboratórios que nada nos fizeram a não ter dito a má sorte de nascer e damos inúmeras regalias jurídicas a pedófilos, estupradores, serial killers, … pelo menos aqui no Brasil onde a justiça em termos de punição tem se mostrado amplamente falha e paternalista com aqueles que podem (pagam) para se defender.

    • Bruno Veren | 12/09/2020 at 20:01 | Responder

      Muito obrigado pela sua contribuição Vera!

      Na intenção de clarear a explicação da vontade descrita por Schopenhauer, entendo está como algo instintivo, ou seja, algo que guia toda a natureza para uma determinada finalidade. Gostei de entender e aprofundar este tema para instigar o pensamento de quão próximo o animal humano é do animal não-humano e que o cerne desta vontade é a vida, portanto todos prezam e são capasses de implorar por ela.
      Quanto a sua segunda colocação queria agradecer, pois me proporcionou uma reflexão ainda mais aprofundada sobre a relação de expressão dos sentimentos.
      Se olharmos vídeos de animais em momento de abate veremos o desespero no qual eles se encontram ao ver seus companheiros caindo aos poucos, ou ainda de nem estar no mesmo ambiente, mas sentirem o cheiro de sangue de seus semelhantes que por ali passaram. Entre outras práticas de abate.
      Mais afundo nas indústrias de cosméticos, de criação de animais de estimação para venda, de pele, entre outros como citastes, o sofrimento é igual ou pior, pois passam uma vida em gaiolas, sendo as chamadas matrizes ou ainda servindo para testes cruelmente desnecessários.

      Portanto Vera, concordo com sua reflexão, de que se somos tão semelhantes aos animais em comparação aos sentimentos de medo, dor, agustia, memória, etc. porque somos considerados superiores? Não seria esse sentimento, apenas uma defesa para os nossos costumes cruéis e mesquinhos. Um sentimento atribuído apenas para continuar saciando prazeres? Seriam os prazeres uma justificação para tais atos de maldade?

      Novamente, muito obrigado por agregar.

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